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Uma entrevista com Rozalina, uma trabalhadora a domicílio na Bulgária

Esta entrevista descreve as experiências da Rozalina, que já realizou vários tipos de trabalhos, desde o calçado até fabricar sacos de papel para lojas. Ela também trabalha com outros trabalhadores a domicílio para tentar melhorar as suas condições de trabalho.

As mudanças na economia da Bulgária e o seu impacto sobre os trabalhadores a domicílio no país

Com as mudanças no sistema temos que trabalhar sete dias por semana em vez de cinco dias. Temos que trabalhar dez horas por dia, ou mais, para receitas muito baixas, de entre 120 e 220 levas por mês. Não há nenhuma forma de segurança social, nem para a saúde nem para as pensões.

“Durante o período socialista, havia muitas fábricas e grandes empresas aqui. Havia muito trabalho para toda a gente. Usualmente a gente trabalhava nas fábricas durante o dia e trabalhava nas suas terras no seu tempo livre. A gente cultivava principalmente o tabaco ou os tomates ou a fruta como, por exemplo, os pêssegos.

Depois de 1989, o sistema mudou … Muitas empresas estrangeiras vieram cá e as empresas que já existiam eram privatizadas. Todas as grandes empresas eram vendidas e destruídas.

Já não havia ordenados regulares e introduziu-se uma nova forma de trabalhar. Estabeleceram-se novas oficinas de costura para fazer trabalhos para os subcontratadores gregos e italianos. Durante o processo de privatização muitos búlgaros levaram as máquinas das grandes empresas e abriram novas oficinas. Essas oficinas trabalham para as empresas gregas e italianas.

Durante o período socialista, trabalhávamos oito horas por dia, cinco dias por semana e tínhamos bons ordenados, usualmente de entre 300 e 600 levas por mês. Toda a gente tinha direito à segurança social e aos serviços de saúde e também tinhamos direito a uma reforma. Tínhamos direito às férias e aos dias de folga quando doentes...

O governo agora permitiu as empresas a ter seguros para os seus trabalhadores ao nível mais baixo possível, ao nível do salário mínimo, que é 120 levas por mês. No passado, todos os seguros de saúde eram pagos pela empresa. Agora o trabalhador tem que pagar metade e a empresa paga a outra metade.

Com o aumento das oficinas de particulares começaram-se o trabalho informal e o trabalho a domicílio.

Na agricultura, antigamente tudo funcionava a base de contractos escritos. Valia a pena cultivar o tabaco, ou os pêssegos, ou qualquer produto que seja. A gente recebia o pagamento depois de um mês.

Agora as empresas levam o tabaco mas não pagam a gente atempadamente. Há pessoas que estão à espera dois anos para receber o dinheiro. Às vezes as empresas que encomendaram os tomates não pagam porque dizem que não conseguiram vender os tomates aos consumidores.

Se alguém trabalha a sua própria terra, não se tem acesso a certos mercados. Pode-se cultivar, por exemplo, lindas favas verdes mas ninguém as vai comprar. Deitam-se no lixo. Com os pêssegos, é necessário ir ao mercado todos os dias e se eles não vendem então se tem de trazê-los de volta ou deitá-los fora.

Já nada é seguro. A vida é muito mais dura do que era. Em vez de avançar estamos a retroceder.

O trabalho a domicílio na Bulgária

Com o estabelecimento das oficinas e o aumento da subcontratação de outros países, surgiu uma nova forma de trabalhar, isto é, o trabalho a domicílio.

Na minha terra natal há três ou quatro formas principais de trabalho a domicílio: coser as gáspeas do calçado; coser pérolas e lantejoulas nas blusas; fabricar sacos para as lojas e, mais recentemente, cortar os fios nas blusas e nos t-shirts.

Na minha vila, o trabalho a domicílio é feito para os subcontratadores. Os trabalhadores a domicílio têm que ir às oficinas e buscar o trabalho, têm que acabar o trabalho dentro de um prazo e depois têm que entregar as peças à oficina.

Organizando os trabalhadores a domicílio para conseguir mudanças

Os problemas principais são pagamentos sem regularidade e pagamentos desiguais para trabalhadores a domicílio que fazem os mesmos trabalhos. Se quiserem ganhar o salário mínimo então têm que trabalhar dezasseis horas por dia, ou, se tiverem sorte, doze horas por dia. Se quiserem ganhar mais que o salário mínimo então toda a família tem que ajudar no trabalho.

O salário mínimo é 120 levas por mês. Mas para sobreviver uma família de quatro pessoas precisa de pelo menos 400 levas. Por isso as pessoas têm que ganhar mais dinheiro que o salário mínimo.

Muitas pessoas têm trabalhos regulares mas nesses empregos que supostamente são regulares, não recebem os seus ordenados atempadamente. Têm vidas muito difíceis. As condições estão péssimas e temos que lutar para sobreviver.

Até agora, estive a entrar em contacto com várias mulheres e estou a tentar estabelecer uma organização dos trabalhadores a domicílio.

Um dos problemas é que os subcontratadores pagam preços diferentes para o mesmo trabalho. O trabalho é sempre igual - coser as gáspeas de calçado - mas mulheres diferentes são pagas preços diferentes. Então estivemos a trabalhar com as mulheres para tentar assegurar que toda a gente recebe o mesmo preço para o mesmo trabalho.

Mesmo dentro da vila os preços não são iguais. Tudo depende do subcontratador. Mas é ainda mais difícil nas aldeias, onde os subcontratadores pagam ainda menos que nas vilas.

Estamos a organizar-nos ao redor desta problemática. Dizemos que somos todos trabalhadores a domicílio, temos algum poder e alguns direitos. Gostávamos de construir e reforçar a organização, com uma constituição muito precisa, e de encontrar maneiras em que nos podemos proteger. Neste momento, a coisa mais importante é conseguir o mesmo preço para todos os trabalhadores a domicílio que fazem o mesmo trabalho.

Espero que vamos conseguir construir uma vasta organização dos trabalhadores a domicílio na Bulgária.

Gostava que a nossa organização dos trabalhadores a domicílio tivesse ligações com organizações semelhantes em todo o mundo...

A coisa mais importante para nós é forjar esses laços. Aqui, na minha terra natal, quero construir uma boa organização e, mais tarde, demonstrar aquilo que somos capazes de fazer aqui.”

Depois desta entrevista os trabalhadores a domicílio na Bulgária conseguiram assegurar que os trabalhadores nas vilas e nas aldeias recebessem o mesmo preço para o mesmo trabalho.